quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Um poeta que era tio.

https://correiodaamazonia.com/manaus-perde-o-artista-plastico-e-lider-religioso-roberto-evangelista/

Soube na noite de 12/11/2019 da morte de meu Tio Roberto Evangelista e fiquei muito triste pois meu contato com o lado paterno da família foi sempre muito carinhoso apesar de não ser muito frequente.

Justamente por essa distância é que lanço mão da internet pra comunicar meus sentimentos e desejar tranquilidade para os familiares na despedida.

São muitas formas de lembrá-lo mas para mim suas palavras mais inesquecíveis estão em seu livro de hai kais "O crisântemo de Cem Pétalas": "Se cem homens/contemplam a mesma pedra:/mil pedras desiguais."

Não se trata apenas de saber que diferentes pessoas observam a mesma coisa de diferentes jeitos. Esses versos nos fazem lembrar que a mesma pessoa também lança vários olhares diferentes sobre a mesma coisa por diferentes motivos, em diferentes momentos, sob diferentes sentimentos, etc. A multiplicidade de olhares não multiplica somente o que vemos... de certa forma multiplica o próprio indivíduo. Evidencia nossa capacidade de termos vários olhares, de sermos vários observadores em uma só pessoa: de mudar. E acumularmos mudanças. 

A poesia não fala somente sobre diferentes opiniões vindas de pessoas com diferentes pontos de vista. Ela também fala sobre a capacidade de cada um de enxergar sob mais de um ponto de vista. Mudar, aprender, acumular aprendizados, por-se no lugar dos outros.... nós temos essa capacidade. Essa é uma importante lembrança em uma época de avanço internacional do obscurantismo, tanto político quanto religioso, quando violações de direitos fundamentais são amenizadas sob o pretexto de serem apenas uma "opinião". 

Racismo por exemplo é crime e precisa ser denunciado como tal independente de qual seja a opinião. E pra quem ainda insiste no erro recomendo fazer o exercício do olhar proposto pela poesia... mude seu olhar! Ponha-se no lugar do outro. Ou simplesmente... escute o que as pessoas afetadas pelo racismo lhe dizem e seja sensível ao que ouvir. 

Isso é válido para diversos outros preconceitos mas estou falando especificamente de racismo pois exatamente um ano atrás escolhi essa poesia como epígrafe do meu trabalho de conclusão de curso na Unirio sobre a influência das teorias racialistas na mentalidade carioca do pré-abolição. Foi uma monografia inovadora, bem avaliada mas que ainda precisa ser aperfeiçoada e principalmente mais aprofundada pois há muitos elos para serem estudados entre o suposto "racismo científico" e os ideários do século XIX, como por exemplo o próprio espiritismo.

Que a poesia nos ajude a honrar nossas origens sem abrir mão do nosso dever de consciência. E que sejamos capazes de olhar... respirar e olhar de novo. 

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Encontro Ori - UFRJ

Quarta feira, 30 de outubro, apresento no Encontro Orí meu tcc “A influência do racialismo na mentalidade carioca pré-abolição” orientado por Cláudia Santos (Unirio).

sábado, 25 de maio de 2019

Pensamentos sobre Brasil Paralelo

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Meu primeiro contato com Brasil Paralelo se deu por indicação de Daniela Martins que me enviou o vídeo: Brasil a última Cruzada, capítulo 1, A cruz e a Espada. Pessoalmente não estou satisfeita com esta apresentação e gostaria de entender: em que consiste o brasil paralelo? Quem o compõe? Quais são suas origens e atuações? E qual é seu objetivo com este material em específico?
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Neste vídeo um apresentador não identificado oferece um documentário livre de narrativas ideologicas a um público cansado de “ouvir que não temos história” (sic) para suscitar conhecimento, verdade e orgulho. Trata-se de um produto online gratuito, anunciado como a “maior série sobre Historia brasileira já produzida” (sic), e usado como propaganda de assinaturas pagas da plataforma “Brasil Paralelo” (0:01 a 1:30). Porém a ficha técnica disponível (50:10 a 51:40) credita somente os “palestrantes e equipe brasil paralelo”, sem individualizar quem é responsável por funções essenciais na construção da narrativa cinematográfica como direção, roteiro, edição, produção, fotografia, som e principalmente pesquisa. Tampouco há fontes, que possam ser conferidas por quem assiste, fundamentando os argumentos dos tais palestrantes. Esta ausência de referências levanta dúvidas quanto à qualidade do suposto documentário além de uma preocupação com possíveis violações de direitos autorais no uso de imagens e músicas.
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Resta claro que este filme tem limitações como qualquer outro material opinativo. E não haveria nada de errado nisso se sua descrição, introduzida logo no primeiro minuto e meio, não mentisse sobre o que promete. Profissionais realmente livres teriam simplesmente afirmado que se trata de uma série de entrevistas, o que é uma forma digna de propagar idéias quando quem entrevista justifica, sob seu ponto de vista, a seleção dos entrevistados e comprova o porquê de eles serem autoridade no assunto em questão. Mas ao invés de agir com tal clareza o Brasil Paralelo não nomeia diretamente a quais interesses ideológicos está atrelado preferindo desprezar as referências e, com elas, o próprio ofício de historiador, além de apelar à emoção através de uma linguagem audio-visual impactante.
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Senão vejamos:
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Ao longo de seus cinquenta minutos o filme concatena cortes de entrevistas com uma luxuosa arte audio-visual e uma narração que tenta trilhar o desenvolvimento histórico humano desde trinta mil anos atrás (7:00). Sem nomear a revolução neolítica o narrador parte das pinturas de nômades, posteriormente substituídos por agricultores, até citar a forma escrita de transmissão cultural (8:30) como o fator que possibilitou o aparecimento da filosofia grega, o direito romano e a moral judaico-cristã, e chama o acúmulo destes elementos de civilização ocidental (9:00). Ocorre que este processo é deveras longo e complexo, há muita participação de diversos povos cujas culturas foram excluídas desta breve explicação. Ademais, ao falar da “experiência de nossos antepassados” (9:20) o narrador enraiza uma identificação com seu público-alvo ao mesmo tempo que se posiciona no combate que descreverá. (10:00). 
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Os palestrantes iniciam então seus pareceres sobre o surgimento e expansão do islã (10:40), por volta de 700, sobre seu conceito de guerra Jihad (11:20), sobre a suposta hegemonia muçulmana no território europeu, norte da África e oriente médio (11:50) e sobre o desarmamento visigótico como motivo de tais invasões (12:50).  Mas não apresentam fontes de mapas, gráficos, censos, etc. Apenas lançam a idéia de que a cristandade precisava ser defendida da  prenunciada extinção, associando tal defesa a  uma batalha do bem contra o mal. Note que aos 17:50 o solene narrador recita um trecho de um dos poucos documentos usados no filme, a carta de Arcebispo Guilherme de Tiro, sem contudo dizer onde tal documento pode ser consultado. O mesmo é feito com uma descrição árabe de batalha (14:50), e algumas bulas e tratados ao longo do filme. 
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Além disso o narrador admite que os governos centrais não eram organizados por volta do século XI (18:10) e mesmo assim se refere anacronicamente aos países França, Espanha, etc, provavelmente para facilitar a compreensão. Não há mal nenhum neste recurso de comunicação nem nas outras opções narrativas feitas até aqui. Apenas estou frisando como a linguagem filtra expressões e silenciamentos, entrelinhas e generalizações, para melhor refletir o ponto de vista de quem produz e patrocina o filme por mais que este se esconda sob o rótulo de “a verdade”. 
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Já em 19:10 há uma comparação rasa dizendo que a devastação provocada por muçulmanos havia sido pior que o imperialismo romano, sem contudo aprofundar as semelhanças e diferenças de flexibilização politico, religiosa e cultural em cada uma das ocupações comparadas. Aliás, a tentativa coesa de descrever o mundo árabe como uma ameaça de iniquidades, além de ofensiva é simplista e diminui suas muitas influências na própria cristandade, sejam militares, técnicas, linguísticas, etc. Repito, ignorar os povos com quem o contato contribui para desenvolver importantes elementos dentro da chamada “civilização ocidental” é uma escolha do emissor da mensagem. Devemos atentar para ela apesar da pretensão do filme de eclipsá-la. 
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Uma vez colocada a tese de resposta à agressão muçulmana, as cruzadas, bem como a ordem dos cavaleiros templários, são representadas como instituições de proteção da chamada civilização ocidental identificada com a cristandade (21:10). E é desta figura que o filme se vale para falar superficialmente sobre o Milagre de Ourique, sem maiores detalhes historiográficos nem fontes documentais, apenas reafirmando o ponto de vista mítico (23:00 a 24:00). A narração também não aprofunda os atritos entre o poder secular e o poder temporal influenciando o olhar do público apenas com desenhos sombrios de Felipe o belo e alguns papas, novamente sem dar créditos pela autoria da arte. 
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Como desfecho Portugal é retratado heroicamente por não atender à proibição da ordem protetora, o que teria potencializado sua prosperidade e pioneirismo (32:00) até a conclusão do filme desembocar no Brasil. Assim estão cristalizadas as imagens por um lado de Portugal como pai fundador, portador da civilização, ao mesmo tempo bastião e beneficiário da providência divina, e por outro lado do Brasil, nobre herdeiro do império ocidental/cristão, motivo de orgulho para descendentes de tais famílias brancas. 
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Apesar de não ser meu intuito esmiuçar as nuances desse processo, não rejeito o heroísmo, a motivação espiritual, a mentalidade da época e outros argumentos do filme. Explicações simbólicas não estão incorretas, estão apenas incompletas. Tanto é insensível ao contexto ignorá-las quanto é ingênuo aceitá-las exclusivamente, destacadas de outras estruturas políticas, econômicas e culturais devidamente comprovadas com pesquisa histórica. Assim pretendo verbalizar racionalmente o que o filme quer naturalizar cinematograficamente. Porque uma produção tão rica como essa não deixou de atribuir referências apenas por amadorismo acidental. Cada uma das omissões assim como cada imagem artística, arquitetônica, monumental ou paisagística, cada música (da pacem domine, talvez?), pausa, entonação, etc, foi cuidadosamente decidida neste filme, a fim de construir uma tese capaz de ufanar os espectadores que se imaginam, pela primeira vez, parte de um cenário grandioso. 
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Eu não desmereço tais espectadores pois não acho que serem convencidos por esta obra significa uma fraqueza. Significa apenas que são sensíveis a uma emoção poderosa e habilmente estimulada pelos produtores do filme: o pertencimento à fantasia heróica que lhes salva de um sentimento de inferioridade. Porque essa comunicação apelativa e ímproba do “Brasil: a última cruzada” mira justamente na pouca estima que algumas pessoas nutrem por sua própria identidade enquanto brasileiras. 
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E isso não significa uma displicência na forma brasileira de lidar com a memória. Significa que povos periféricos e miscigenados sofrem efeitos negativos em sua auto-imagem por viver uma cultura europocêntrica, racista, elitista. Principalmente devido às políticas discriminatórias que ceifaram a própria história pessoal e familiar de consecutivas gerações no Brasil. Seja através dos genocídios ou de migrações forçadas, trabalho escravo, guerras, perseguições e encarceramentos, mudanças de nomes forçadas, proibição de línguas e práticas culturais e religiosas, desaparecimento e morte de inimigos políticos, queimas de arquivos… enfim, os exemplos nunca deixaram de permear a história brasileira. 
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Mesmo assim, em face a tanta violência a população consegue construir suas redes de resistência para driblar o abandono, a miséria, a falta de documentos, a baixa expectativa de vida, o cerceamento de garantias fundamentais, e principalmente o desprezo com que a elite sempre lhe explorou. A despeito de sermos um país com extremos de desigualdade, que só saiu do mapa da fome por um breve momento no século XXI e logo voltou, o povo brasileiro através de séculos sobrepujou em cultura, em ineditismo, enfim, em organização social. Com a memória afetada sim, e mais que isso, com a memória gravemente negada à quem lhe tem direito, ainda assim, seguimos! As muitas expressões nacionais prosperam justamente por saberem que são plurais e que têm em comum um duro golpe em sua essência desferido pela arbitrariedade de quem ao longo dos séculos tentou lhes apagar do mundo. 
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Aqui estou falando do trecho do filme aos 4:50 em que um palestrante diz que a “apologia do território separada da apologia dos que a conquistaram não faz o menor sentido” por um motivo simples: já havia pessoas, vida, cultura, direitos, história no território saqueado pelos conquistadores que o filme pretende exortar. E é a vivência de um povo que descende tanto de conquistadores quanto de conquistados que precisamos respeitar. Esse respeito se dá ouvindo as pessoas que sobrevivem à tentativa de aniquilação, não dando mais espaço para o insulto de quem opina que “Todos eles enfrentam crise de identidade porque não sabem quem são, de onde vieram”, aos 5 min do filme. O povo brasileiro cultiva com preciosidade a hereditariedade que consegue construir sob opressão e afirma por conta própria seus valores e tradições. Não é possível chamar os cidadãos detentores de tanto patrimônio cultural, inclusive reconhecido mundialmente, quanto os brasileiros de ignorantes com base na perda de uma árvore genealógica que lhes foi violentamente obscurecida. Aliás, é possível sim porém é desonesto. E pelo visto desonestidade é a língua do Brasil Paralelo.
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Espero não ser chamada a assistir próximos episódios desta série. E desejo que as pessoas deslumbradas à primeira vista com este filme possam repensar seu apoio ao Brasil Paralelo. Não desejo que percam sua sensibilidade mas que, pelo contrário, a exercitem juntamente de seu senso crítico. Tenho certeza de que somos capazes de continuar estreitando os laços de amizade entre nações e apreciando a cultura ibérica sem que para isso tenhamos que esquecer o violentíssimo processo que nos trouxe até o dia de hoje. Devemos lembrar dele não pelo orgulho de sermos sua continuação e sim pela disposição a sermos sua ruptura e superação. Somos capazes de fomentar culturas que incluem, não que segregam, que dialogam, não que combatem, e temos o dever de fazer isso junto a um esforço de reparação histórica. Porque a história de um Brasil que se compreende múltiplo, ao invés de descoberto, deve ser contada todos os dias.