quarta-feira, 1 de outubro de 2025

quinta-feira, 19 de março de 2020

18/03/2020 Panelaço brasileiro?

Para a população encarcerada bater canecas (ou o que estiver a disposição) contra as grades é uma forma possível de protesto. O ato funciona como um chamado pros presos ao redor aderirem também, criando uma onda de barulho difícil de perceber de onde exatamente vem e, principalmente, difícil de ser reprimida toda ao mesmo tempo. Também fortalece as pessoas alijadas de seus direitos com a sensação da ação coletiva, poderoso estímulo da humanidade. Finalmente, o estorvo camufla sons de outras coisas que se pretende fazer disfarçadamente em rebeliões.

Pensando nisso me pergunto:
Quão parca deve ser a democracia nas cidades em que a opção de protesto se assemelha ao bater chapa dos presídios? De quais prisões esses "paneleiros" não conseguem sair para se manifestar fora de seus lares? Será a dificuldade de locomoção de idosos e deficientes em cidades hostis ou talvez a ameaça à integridade frente a algum toque de recolher (do estado ou de facções)? Será o comodismo de quem manda suas babás e empregadas domésticas pedirem impeachment, conforme fotografado em 2016?
Desde a última década tenho me perguntado e em 2019 a resposta veio sob a forma de Chile sitiado. Já sua atualização, em 2020, foi um Brasil em quarentena anti-corona vírus. 

E não fui eu a primeira me perguntando sobre o estrangeirismo deste ato que nunca fez parte de nossa cultura política. Os jornais brasileiros são claros ao dizer que os panelaços, tradicionais no Chile e Argentina, são uma novidade que o antipetismo da última década trouxe para o Brasil. Um exemplo, que está longe de ser considerado de esquerda, é o próprio Jornal do Comércio fazendo esta crítica.

Desse modo, me preocupa um pouco que os panelaços aproximem os atuais opositores do governo Bolsonaro daquela elite machista que escarneceu da primeira presidenta do Brasil quando o dólar, a gasolina e o desemprego estavam tão abaixo dos atuais índices. Mas mesmo assim reconheço o valor de qualquer expressão coletiva que organize nossas indignações, e respeito muito quem fez do panelaço de ontem (18/03/2020) um momento de afirmação democrática em meio ao confinamento. 

Ocorre que o próprio presidente Jair, sabendo da organização para aquele protesto, daquela forma, naquele momento, convocou seus apoiadores para fazer exatamente o mesmo a fim de gerar confusão, a principal tática de sua vida política.

Feita a confusão, o significado político do panelaço de ouvido em várias cidades ontem permanece uma incógnita. Fora a satisfação individual que cada um teve (ao extravasar ao mesmo tempo apoio ou rejeição ao governo) restam apenas alguns convalescentes, bebês e animais domésticos assustados com o barulho e uma população atomizada: aos gritos! porém incapaz de estabelecer diálogos... muito parecida, portanto, com a população carcerária. :(

Quanto a esta, ainda não se sabe como ela será socorrida em meio a pandemia. Há diferentes propostas de desencarceramento para frear os contágios de covid-19 (que já deviam ter sido discutidas antes devido ao sarampo, tuberculose, hiv, etc). Porém algumas delas são criticadas pois fortaleceriam os movimentos da criminalidade organizada que sabe-se lá como participa de redes de influência armadas, comerciais e políticas.

Por mais que eu não queira aderir a conspiracionismos a realidade é que quando olhamos o presidente comediante não estamos mirando a face do poder no Brasil. A real política tem sido feita por entes privados em acordos que desconhecemos. Então se nesse contexto o representante maior da "familícia" substituir de vez nossa ordem democrática por uma sociedade policialesca/militar, justo neste momento de suspensão das atividades em público, que resistência poderá ser feita à distância, digitalmente? 

Não sei o que nos aguarda. Tenho saudade de nadar, de namorar e de acreditar que a cidade é de seu povo. Cada vez mais sei: nunca foi. 

sábado, 14 de março de 2020

Suspensão de atividades

Para frear a propagação do Corona vírus o governador Witzel decretou suspensãos de todas as atividades nos âmbitos coletivos sejam eles educacionais, culturais, políticos, desportivos, artísticos, jurídicos, religiosos, etc. 
Mas mesmo sob o isolamento nós continuamos perguntando:

QUEM MANDOU MATAR MARIELLE FRANCO? #14M

domingo, 1 de março de 2020

Em 2020 meu emprego na Casa de Cultura Laura Alvim e meu mestrado na Unirio darão novas direções a este blog. Será que consigo colecionar pensamentos (e leitores) por aqui? :)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Setor de RH não é lugar pra ignorantes.

Em 02/01/2020 vi uma ex-colega de turma, dizer que "a economia está melhorando" no stories do Instagram e lhe perguntei privadamente: "a economia está melhorando?"

Perguntei pois foram diversas as denúncias, em jornais nacionais e internacionais, de que o governo estava mascarando dados sobre exportações, PIB, desemprego/desalento, desindustrialização e outros temas importantes da economia no ano passado (ao mesmo tempo que aumenta a população de rua, os contágios de doenças mortais, o preço dos combustíveis, da carne, o dólar...). E fiquei chocada com sua resposta.

Ela citou um único jornal pra afirmar uma "melhoria da economia" totalmente descolada do desemprego crescente que, segundo ela, resulta de falta de vontade das pessoas trabalharem. O que embasava sua opinião era sua experiência pessoal trabalhando no RH de uma empresa responsável por cerca de 200 famílias, de onde ela até me mostrou algumas planilhas administrativas.

Me entristece pensar que tantas pessoas despreparadas trabalham com recursos humanos mas, como se tratava de uma ex-colega, eu expliquei pra ela algumas dificuldades que as pessoas desempregadas tem no próprio processo de buscar emprego (que por si só já consome recursos, tempo, roupa social, dinheiro para se deslocar, etc). Também a parabenizei pelo trabalho e disse que fico feliz em conversar com amigas da faculdade apesar de eu própria não socializar muito ultimamente pois também estava procurando emprego.

Bastou pra que ela revelasse seu misto de preconceitos de classe, orgulho de ser empresária e mágoa por nem sei o quê. Dizia ela que sem estar no lugar dela as pessoas só podem fazer análises superficiais e sem empatia "por estarem com um discurso convicto em mente". Que as crenças limitantes e as desculpas são maiores do que as vontades do ser humano. Que os dados da planilha de entrevistas de empregos de sua empresa mostram a realidade. E que eu não sabia, como ela sabe, o que é ter a vergonha de dizer para um colaborador que o salário vai atrasar ou ter que voltar andando pra casa pois a única grana na conta era para ticket alimentação de funcionário.

Devido à grosseria com que ela me respondia eu não tive a chance de dizer a ela que eu sei, sim, o que é receber meu salário atrasado e voltar a pé pra casa sem vale-transporte. Dava pra ver mágoa mesmo em suas palavras. Mágoa que ficou muito clara quando ela disse que não era mais a menina florida da faculdade, que não admitia que eu lhe dissesse o que ela devia ou não aprender, e que havia sofrido e mudado.

Sim... sofrer e mudar é o que todos nós temos vivido mas eu também não lhe disse isso. Disse apenas que eu estava aberta pra conversar caso ela quisesse, e que nas minhas experiências profissionais eu já vi muita fiscalização contra trabalho escravo, racismo, crimes de ódio, preconceito contra pessoas com deficiência, criminalização da pobreza, etc.... mas nem por isso confundo minha experiência pessoal com a realidade do país inteiro.

E a pá de cal veio quando ela me disse que não tinha tanto tempo livre quanto eu mas que me sugeria o telefone de uma psicóloga para lidar com síndrome de inferioridade.

É decepcionante saber que pessoas tão ignorantes organizam os Recursos Humanos de empresas mundo afora... e é um pouco vergonhoso que um dia eu tenha me enganado com a falsa amizade de uma delas.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

21/02/2020 Ala Girassol no desfile da Rocinha

Em 21/02/2020 a escola de samba Acadêmicos da Rocinha foi a primeira a garantir espaço pra que pessoas cegas e com baixa visão desfilassem no carnaval 💙
Parabéns à coreógrafa Renata, ao presidente Gutman, e a todos da associação girassol com quem tive a alegria de ser voluntária.



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

21 de fevereiro: Dia Nacional do imigrante italiano.

Trago do facebook pra para cá meus escritos sobre o dia Nacional do imigrante italiano, 21 de fevereiro, que segundo o IPHAN foi escolhido em memória à primeira expedição em massa de imigrantes do norte da Itália para o Brasil, em 1874.

Nos imigrantes do Brasil mistura-se um histórico de esperança e opressão. E sendo descendente de quem floresceu em meio a essa mistura tenho a responsabilidade de lembrar e, se possível, tentar compreender.
O início de nossas políticas imigrantistas foi indiscutivelmente racista e objetivou substituir os negros e mestiços escravizados, que jamais receberam qualquer reparação, por povos europeus que embranquecessem o país.
E apesar de receberem incentivos que não foram destinados aos povos considerados atrasados (por exemplo chineses) essa predileção não protegeu os imigrantes europeus de primeira onda contra as condições análogas à escravidão a que foram submetidos aqui.
Ainda assim as famílias italianas estabeleceram suas raizes e contribuíram MUITO com o Brasil, assim como as alemãs, japonesas e tantas outras. 
Com o passar do tempo as diferentes ondas de imigrantes (de diferentes povos) tiveram que lidar com diferentes dificuldades. Uma delas, já superada, foi a proibição de seus idiomas na época do Estado Novo. A reparação deste medida é um dos elementos que fundamentou o reconhecimento do Talian (dialeto ítalo-brasileiro) como Referencia Cultural Brasileira pelo Decreto 7.387/2010.
Hoje os principais imigrantes a se radicarem no Brasil vem de outros países latino americanos e da Síria. Contudo nosso país mais exporta do que recebe imigrantes.
Não há motivo para, em 2019, com a facilidade que temos de acessar informação e educação, continuarmos tolerando pensamentos xenofóbicos se nossa própria cultura é, por si só, um amálgama tão rico.